As plantas e a guerra química no escritório

Bill Wolverton, cientista da Nasa, foi durante muito tempo encarregado de cuidar do ambiente hermético das naves espaciais que conduziam tripulantes, bem como de estudar as reações destes. Mesmo com todos os cuidados, o espaço fechado das naves das missões Skylab ainda continha mais de trezentos compostos voláteis orgânicos. E o melhor caminho encontrado pelo cientista para anular os efeitos desses compostos foi o de colocar nas espaçonaves prosaicas plantas domésticas.

Azaléia

No final da década de 60, provocou muitas discussões um artigo publicado no jornal The New York Times em que o jornalista concluía que "viver dá câncer e leva à morte". A tal conclusão ele chegava depois de lembrar que cigarro dá câncer, agrotóxicos nos alimentos provocam vários tipos de câncer, amianto pode causar câncer no pulmão, várias substâncias emitidas pelos canos de descarga dos veículos também geram câncer. E ainda havia o açúcar, os adoçantes artificiais, vários outros produtos químicos.

É isso mesmo. Na verdade, grande parte dos produtos do engenho humano que nos rodeiam no cotidiano pode provocar câncer ou outras doenças. E com a agravante de que os nossos modos de viver - em concentrações humanas cada vez maiores - complicam muito os problemas. Prometem até complicar mais: uma pessoa que tenha hoje 60 anos de idade nasceu num mundo que tinha pouco mais de 2 bilhões de pessoas; agora, a população já vai cruzar a faixa dos 6 bilhões, e a cada década quase 1 bilhão mais de pessoas se soma. Cada vez mais pessoas ocupando o mesmo espaço, respirando o mesmo ar, consumindo a mesma água e os mesmos recursos vegetais e minerais. Nesse nível, tudo fica muito mais difícil, mais complexo, mais ameaçador e as pessoas tendem a confinar-se em suas casas e no seu trabalho, na tentativa de escapar aos dramas da concentração urbana - a poluição, a insegurança, o barulho, o desconforto. Mas nem aí elas estão mais seguras.

A repórter Regina Scharf levantou tema raríssimamente tratado na comunicação brasileira, mas nem por isso menos relevante, tanto que ocupa espaço cada vez maior em publicações especializadas fora daqui: a "guerra química" nos ambientes comerciais e industriais fechados, que tanto atinge pessoas como provoca perdas econômicas substanciais e progressivamente maiores. Em seu texto, a Gazeta Mercantil destacou principalmente o problema da mistura, nos escritórios e instalações industriais, de ácaros, fungos e larvas com gases trazidos do exterior pelos sistemas de ar condicionado e com as substâncias desprendidas de móveis, tapetes, carpetes, pintura de parede, cortinas e também equipamentos eletrônicos.

Grande parte dos produtos do engenho humano que nos rodeiam no cotidiano pode provocar câncer e outras doenças Ainda há poucas semanas, revistas científicas publicaram relatos impressionantes sobre o tema, que dão ênfase a mais um ângulo desse problema: as substâncias químicas emitidas por pessoas e que reagem com outras na atmosfera fechada, gerando processos altamente nocivos aos próprios seres humanos e equipamentos (chegam a apagar registros de computadores e a afetar aparelhos de telefone e fax; nas pessoas, provocam vários tipos de problema, como cansaço, irritação, dores de cabeça, torpor, dor de garganta, nariz afetado, irritações na pele, etc.).

A suspeita maior recai sobre os chamados compostos orgânicos voláteis, dos quais já se identificaram mais de 250 na atmosfera de escritórios, desprendidos dos materiais e (descoberta mais recente) das pessoas. Tanto assim, que nos lugares de alta taxa de ocupação humana a presença desses compostos é observada em níveis que podem chegar ao dobro dos observados em lugares pouco freqüentados por pessoas. O fato é que as roupas usadas por pessoas desprendem substâncias químicas, assim como do próprio corpo humano se soltam moléculas e produtos químicos encontráveis no xampu, no sabonete, no desodorante, nos perfumes. Estes últimos podem ser particularmente complicados, já que em alguns deles se encontram até cem ingredientes. O próprio corpo humano produz acetona e isoprene.

Os piores agentes, ao que parece, são os radicais que juntam um átomo de hidrogênio e um de oxigênio, com um só elétron, que busca um parceiro e reage rapidamente com os compostos orgânicos voláteis. Forma-se, assim, um "smog" fotoquímico, que se pensava só era encontrável na atmosfera poluída das ruas. Em um metro cúbico de ar de um escritório pode ser encontrado até 1 trilhão desses radicais - uma densidade que, embora inferior à da cidade poluída, à luz do dia, pode ser mais alta que a da atmosfera externa noturna.

Um dos problemas mais complicados parece ser a reação entre esses compostos e o ozônio emitido por equipamentos como fotocopiadoras e outros ou sugado pelos aparelhos de ar condicionado. Nessa reação, liberam-se formaldeídos, ácido acético, ácido nítrico e outros, que podem danificar equipamentos ou paralisar circuitos eletrônicos. Em casos extremos chegam a por fora de combate até estações telefônicas inteiras. Calculam os especialistas que em dez anos esse tipo de problema gerou nos Estados Unidos perdas superiores a US$ 100 milhões para empresas de telecomunicações.

Quanto à saúde humana, ainda parece difícil estabelecer relações conclusivas, embora os indícios sejam muito fortes. Isso porque a composição atmosférica dos lugares afetados muda de hora em hora e cada pessoa reage de um modo. Além do mais, do ponto de vista ético, seria complicado criar ambientes ofensivos e expor pessoas a eles, para estudar as conseqüências com maior segurança. Os especialistas em interiores vêm propondo vários caminhos para enfrentar o problema, alguns deles mencionados por Regina Scharf.

Uma das propostas mais curiosas, entretanto, vem de um cientista aposentado da Nasa, chamado Bill Wolverton, que durante muito tempo foi encarregado exatamente de cuidar do ambiente hermético das naves espaciais que conduziam tripulantes bem como de estudar as reações destes. Mesmo com todos os cuidados, o espaço fechado das naves das missões Skylab ainda continha mais de trezentos compostos voláteis orgânicos. E o melhor caminho encontrado pelo cientista para anular os efeitos desses compostos foi o de colocar nas espaçonaves prosaicas plantas domésticas - como a azaléia, a tulipa, o bambu e a poinsetia (também chamada de folha-de-sangue), além da seringueira - todas elas capazes de remover formaldeídos da atmosfera. Depois, ele foi acrescentando outras plantas. Lírios, por exemplo, gostam de acetona, metanol, etanol, benzeno, formaldeídos e tolueno. Essas substâncias alimentam a fauna de microorganismos que vive nas raízes dessas plantas. Filodendros, trepadeiras e bananeiras também são muito úteis.

Depois de provar suas teses na Nasa, Wolverton transformou sua própria casa num "ecossistema limpo", graças às plantas. Agora, acaba de publicar um livro - "How to grow fresh air" ("Como cultivar ar puro"), que está fazendo sucesso nos EUA. O filósofo Rousseau com certeza gostaria dessas notícias, que sugerem uma espécie de retorno à natureza. Talvez até dissesse, se vivesse no nosso tempo, que o Brasil é um dos pouquíssimos países que ainda têm condições de rever seus caminhos e optar não exatamente por um retorno completo (não teríamos competência para ser índios, viver na auto-suficiência individual e coletiva em que vivem), mas por um formato mais adequado. Um modelo que com políticas desconcentradoras (de tudo), induzisse uma ocupação mais adequada do território, não a selvageria predatória que impera.

Estrategistas do País insistem com freqüência em que o "status" ambiental é nossa grande vantagem comparativa. Estudiosos mais próximos, como lgnacy Sachs, sempre lembram a nossa possibilidade - talvez única no mundo - de caminhar em direção a uma civilização que tenha sua matriz energética fundada na biomassa e renuncie a padrões consumistas insustentáveis. Estrategistas como Eliezer Baptista da Silva insistem com freqüência em que o "status" ambiental é nossa grande vantagem comparativa - não teremos, ao contrário de norte-americanos, europeus e asiáticos, de arcar com altíssimos custos de reparação ambientais (sempre muitas vezes maiores que os custos de prevenção).

Mas faltam-nos estratégias adequadas. Continuamos a correr atrás de truques inventados por águias, tigres e leões, para suprir, à nossa custa, o que lhes falta. E com isso continuamos a bancar, com a predação aqui, o que é insustentável nos lugares que bolam a regra do jogo. Por tudo isso, alguém sugerir que a solução para tantos dramas do nosso tempo - como a "guerra química" dos ambientes fechados - esteja num simples reencontro com as plantas domésticas, as flores, a natureza pode ser muito útil. Quem sabe não seremos capazes de a partir do olhar doméstico, erguer a vista e enxergar um pouco mais além do horizonte?

Por: Washington Novaes (Jornalista)
Fonte: Artigo publicado na Gazeta Mercantil, em 16/09/1997

 

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