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Falando de Flores

"Desutilidade poética"

Li no último fim de semana o fabuloso "Livro sobre Nada", de Manoel de Barros, e foi de lá que tirei a expressão que título a esta coluna. Peço licença ao escritor mato-grossense que tanto admiro. É que não encontrei nada mais apropriado para a tentativa de classificação do tema que trato hoje: flores.

Útil, diz o dicionário, é "aquilo que tem ou pode ter algum uso ou serventia". Pois não há nada mais sem serventia do que uma flor. Ela não enche barriga, não ajuda a economizar energia, não pode aplacar a queda do real frente ao dólar, nada desses temas candentes que movem a nação. Ao contrário. Nos idos dos combativos anos 60, já foi até um execrado signo de alienação, de descompromisso com a realidade significado que, por exemplo, Geraldo Vandré lhe atribuiu em "Pra não dizer que não falei de flores".

No entanto, não há nada mais definitivo para mudar um ambiente do que uma flor. Não importa a quantidade. Pode ser um exemplar solitário ou um buquê farto, transbordante, tanto faz. Flores têm uma impressionante capacidade de alterar a percepção de todo um espaço. Entre numa casa que tem flores. Elas são imediatamente percebidas. Transmitem um estado de espírito; sinalizam atenção, delicadeza, celebração.

Repare como mais e mais pessoas estão se dando conta disso. Flor virou parte da "cesta básica" de algumas faixas da população. Um presente que se compra para si mesmo e se leva para casa para ajudar a passar a semana com mais beleza e alegria.

Até alguns anos atrás o comércio de flores se restringia às bancas em calçadas, muitas delas próximas a cemitérios. As vendas eram sazonais, e quase se limitavam às datas finados, dia das mães, Natal e dia dos namorados. Hoje os pontos de venda se multiplicaram, incluindo os supermercados, e simultaneamente se sofisticaram. Incrível o requinte criativo que se vê em algumas floriculturas. Os arranjos estão mais bonitos; há maior variedade de vasos, suportes, insumos, acessórios que colaboram para um melhor desfrute das plantas.

Isso ocorre não só no Brasil. O grupo editorial "View" abriu uma revista só para o tema, a "Bloom-View onFlowers", com sede em Paris, porque, segundo sua editora-chefe, Li Edelkoort, as flores estão se tornando cada vez mais importantes no nosso cotidiano e estão intimamente ligadas a outros interesses que temos na vida, como design, comida, tempo livre, amigos, família e filosofia".

Edelkoort por sinal holandesa -, país famoso por suas tulipas, afirma que jardinagem é o hobby em maior crescimento no planeta hoje, mesmo em países em que há carência de espaço e entre pessoas que moram em apartamentos. Confirmando e alimentando a proverbial paixão dos ingleses por jardins, o suplemento "Weekend" do jornal "Financial Times" tem uma seção fixa dedicada à jardinagem, com deliciosos textos que mesclam reportagens e serviços.

No Brasil, os títulos voltados para o tema são ínfimos se comparados à nossa enorme diversidade de flores. Só uma pequena parte é conhecida e cultivada. Nos últimos anos, aleleuia, cresceu também a oferta de flores tropicais. Era uma luta de Roberto Burle Marx. Agora é possível encontrar nas floriculturas surpreendentes helicônias, bromélias, orquídeas, e não mais apenas as espécies importadas como rosas, dálias, e crisântemos que dominavam o mercado no início.

Uma grande vantagem em nosso país é que não soa estranho eu estar falando de flores em pleno inverno. Temos flores em qualquer estação. Por que não aproveitar?

Flores agradam não apenas ao sentido mais óbvio, o da visão. Aguçam o olfato com seus perfumes tão vários e o tato com a infinidade de texturas que oferecem. Fazem festa também do paladar, como ornamentação comestível em saladas.

Será que tudo isso as torna úteis? Depende do que se entende por utilidade. Comentei o assunto com minha filha e ela se saiu com uma opinião definitiva, como costumam ser as dos jovens: "Em minha casa, acho que elas são mais úteis do que um microondas".

*Artigo de Adélia Borges publicado no jornal Gazeta Mercantil de 21/07/2001, na seção Contemporânea

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