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Arruda:
xô mau olhado!
Por: Rose Aielo Blanco
Apesar
de ter aplicação na medicina natural e até na preparação de bebidas, a
arruda ficou famosa mesmo pelos seus "poderes" contra o mau-olhado e outras
vibrações negativas.
Não
é fácil determinar quando surgiu a fama da arruda (Ruta graveolens)
como erva protetora. O que se sabe é que em culturas muito antigas, são
encontradas referências sobre seus poderes contra as "más vibrações" e
seu uso na magia e religião. Na Grécia antiga, ela era usada para tratar
diversas enfermidades, mas seu ponto forte era mesmo contra as forças
do mal. Já as experientes mulheres romanas costumavam andar pelas
ruas sempre carregando um ramo de arruda na mão - diziam que era para
se defenderem contra doenças contagiosas mas, principalmente, para afastar
todos os males que iam além do corpo físico (e aí se incluíam as feitiçarias,
mau-olhado, sortilégios, etc.).
Na Idade Média - época em que acreditava-se que as bruxas só poderiam
ser destruídas com grandes poderes como o do fogo - a arruda reafirmou
sua fama, pois seus ramos eram usados como proteção contra as feiticeiras
e, ainda, serviam para aspergir água benta nos fiéis em missas solenes.
O uso desta planta nas práticas mágicas do passado é impressionante. Em
todas as referências pesquisadas, encontrei receitas que empregam a arruda
como ingrediente. William Shakespeare, na obra Hamlet, se refere à arruda
como sendo "a erva sagrada dos domingos". Dizem que ela passou a ser chamada
assim, porque nos rituais de exorcismo, realizados aos domingos, costumava-se
fazer um preparado à base de vinho e arruda que era ingerido pelos "possessos"
antes de serem exorcizados pelos padres.
A fama atravessou séculos e fronteiras: no tempo do Brasil Colonial a
arruda podia ser vista com freqüência, repetindo a performance
dos tempos antigos, só que desta vez, associada aos rituais africanos.
Numa famosa pintura intitulada "Viagem Histórica e Pitoresca ao Brasil,
o artista Jean Debret retrata o comércio da arruda realizado pelas escravas
africanas. O galho de arruda era vendido como amuleto para trazer sorte
e proteção. E não eram apenas as escravas que usavam os galhinhos da planta
ocultos nas pregas de seus turbantes - as mulheres brancas colocavam o
galhinho estrategicamente escondido nos seios. Outro fator teria reforçado
o valor da arruda naquela época: a infusão feita com a planta era usada
como uma espécie de anticoncepcional e abortivo.
Medicinal, com reservas
Também conhecida como arruda-dos-jardins, arruda-fedorenta
ou ruta-de-cheiro-forte, a arruda é uma representante da Família das Rutáceas.
É uma planta considerada sub-arbustiva ou herbácea, lenhosa, que apresenta
caule ramificado, pequenas folhas verde-acinzentadas e alternadas. As
flores também são pequenas e de coloração amarelo-esverdeada. Originária
da Europa, mais especificamente do Mediterrâneo, a arruda se dá muito
bem em solos levemente alcalinos, bem drenados e ricos em matéria orgânica.
A planta necessita de sol pleno pelo menos algumas horas por dia. Sua
propagação se dá por meio de estacas ou sementes.
Trata-se de uma planta muito resistente que, se atendidas suas necessidades
básicas de cultivo, dificilmente apresentará problemas. A colheita normalmente
pode ser feita cerca de 4 meses após o plantio.
Quanto às propriedades medicinais da arruda é interessante, antes de prosseguir,
fazer uma observação: há séculos, divulga-se que a planta apresenta propriedades
muito ligadas ao desejo sexual masculino e feminino, mas de formas diferentes:
seria um anafrodisíaco (ou anti-afrodisíaco) para os homens e um excitante
para as mulheres. Ainda não foi possível comprovar a veracidade dessas
indicações, entretanto, nos escritos (datados de 1551) de Hieronymus Bock,
considerado um dos primeiros botânicos da história, havia a recomendação
para que monges e religiosos ingerissem a arruda, misturada aos alimentos
e às bebidas, para garantir a pureza e castidade. A verdade é que esta
planta era realmente muito abundante nos jardins dos mosteiros.
Uma substância chamada rutina é a responsável pelas principais
propriedades da arruda. Ela é usada para aumentar a resistência dos vasos
sangüíneos, evitando rupturas e, por isso é indicada no tratamento contra
varizes. Popularmente, seu uso é indicado para restabelecer ou aumentar
o fluxo menstrual e, também, para combater vermes. Como uso tópico, o
azeite de arruda, obtido com o cozimento da planta, é aplicado para aliviar
dores reumáticas. Seu aroma forte e característico, detestado por muita
gente, é considerado um ótimo repelente, por isso a arruda é colocada
em portas e janelas para espantar insetos.
A arruda é, ainda, muito usada na medicina popular para aliviar dores
de cabeça e, segundo os especiaistas, isso pode ser explicado porque ela
apresenta um óleo essencial que contém undecanona, metilnonilketona
e metilheptilketona. Todas essas substâncias de nomes complicados
possuem propriedades calmantes e, ao serem aspiradas, aliviam as dores
e diminuem a ansiedade.
Apesar das propriedades medicinais conhecidas há séculos, o uso interno
desta planta é desaconselhado pois, em grande quantidade, a arruda pode
causar hiperemia (abundância de sangue) dos órgãos respiratórios,
vômitos, sonolência e convulsões. O efeito considerado "anticoncepcional"
na verdade é abortivo, pois provém da inibição da implantação do óvulo
no útero, sendo que a ingestão da infusão preparada com a arruda para
esta finalidade é muito perigosa e pode provocar fortes hemorragias.
Por incrível que pareça, a arruda também teve muita aplicação na culinária:
suas sementes e folhas eram usadas para enriquecer saladas e molhos, em
virtude das boas doses de vitamina C contidas na planta. Seu uso era considerado
uma defesa contra o escorbuto. Além disso, a planta também servia para
aromatizar vinhos.
No sul da Europa, as raízes da arruda eram adicionadas a um tipo de bebida
chamada "grappa", para funcionar como um licor digestivo.
Curiosidade
Existe uma história muito curiosa - não se sabe se é verdadeira -
que relaciona a arruda ao "Vinagre dos quatro ladrões". Conta-se que no
século XVII, a Europa padeceu com uma grande peste que dizimava centenas
de pessoas por semana. Ninguém conhecia a causa da doença e muito menos
a cura. Grandes cruzes vermelhas eram pintadas nas paredes para marcar
as casas de pessoas atacadas pela praga. Alguns ladrões, porém, pareciam
completamente imunes: entravam naquelas casas, roubavam os mortos e não
adoeciam. Muito tempo depois, descobriu-se como esses ladrões se protegiam
- era com uma espécie de vinagre, preparado com arruda, sálvia, losna,
menta, alecrim, lavanda, cânfora, alho, noz-moscada, cravo e canela; tudo
bem misturado em um galão de vinagre de vinho.
* Rose Aielo
Blanco é jornalista e editora da Revista Jardim de Flores


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