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No meio do caminho tinha uma parede
Por: Marcos Sá Corrêa* Poucas mortes devem ser tão parecidas com o fim do mundo quanto à de um beija-flor que colide com uma parede branca a mais de 50 quilômetros por hora. E para esse tipo de efeito especial as paredes andaram especialmente brancas nesta primavera. Antes de se dissolver na umidade pegajosa do verão antecipado, a estação pegou desprevenido o Rio de Janeiro com dias de ar frio e sol ofuscante, como se maio estivesse chegando com cinco meses de atraso. Numa dessas manhãs lavadas, uma fêmea de Papo-Branco se estatelou na fachada de uma casa em Muri, na serra fluminense. Chocou-se no vôo com uma súbita barreira de luz solidificada. Para ela, aquilo foi um 11 de setembro em pleno outubro. Mas, até aí, nada demais. "Os beija-flores, às vezes, voam de encontro a paredes brancas ou vidraças, e com freqüência nestes acidentes escapam à morte, ao contrário de outras aves, como pombas", promete o verbete dos Trochilidae em Ornitologia Brasileira, de Helmut Sick.
De uma hora para outra, Muri tinha perdido de uma vez três exemplares e duas gerações de Leucochloris albicollis, só porque o tempo estava bom. Somando a expectativa de vida da mãe e dos filhos, são pelo menos dez anos de beija-flor a menos. Quer dizer, pouca coisa. A espécie, em si, nada tem de rara. O próprio Sick avisa que, mesmo sem a vizinhança de paredes brancas, "nos anos chuvosos morrem muitos filhotes" e que até o excesso de calor pode levar uma fêmea a desertar o ninho. E, certamente, há um preço a pagar para viver com uma febre crônica de 42° e um coração que bate 1.240 vezes por minuto. Não foi à-toa que Guimarães Rosa chamou o beija-flor de "cintilante instante sem futuro nem passado".
Mas esse também não é o problema, porque já fomos mais perdulários em matéria de beija-flor. No século XIX, fez fama e fortuna em Paris uma certa Mme. Finot, confeccionando chapéus iridescentes com penas de beija-flor. Londres teve um leilão em que saíram, de uma martelada só, nada menos de 37.603 peles de beija-flor, importadas do Brasil e da Colômbia. E em 1905 os livros de moda registram o recorde de oito mil peles num único manto de plumas. À sombra desses números, as três baixas da semana em Muri talvez não tenham a menor importância. Elas só vieram parar aqui, nesta página, para aproveitar algumas fotografias, que ninguém é de ferro, antes que elas baixem ao arquivo morto. E para lembrar que somos mesmo uma espécie muita desastrada no trato com o planeta. Não sabemos nem pintar uma casa sem fazer uma armadilha. *Marcos Sá Corrêa (mscorrea@oeco.com.br)é jornalista e fotógrafo. Formou-se em História. Escreve no site NoMínimo e no portal AOL. Foi editor de Veja e de Época, diretor do JB, de O Dia e do site NO. É pai de Rafael Corrêa, colunista de O Eco (www.oeco.com.br).
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