Água, a próxima vantagem competitiva?

Por: Décio Luiz Gazzoni*

A formação da consciência ambiental ganhou impulso nos últimos 30 anos, em especial nos anos 90. As primeiras iniciativas foram isoladas e com forte apelo emocional, pautadas em observações empíricas, e muitas vezes a discussão não resistia à razão. Faltavam resultados claros, incontestáveis, reprodutíveis, como manda a boa metodologia científica. No entanto, de românticos e utópicos, os movimentos pela preservação do ambiente passaram a integrar o cerne da sociedade. Conquistados os corações dos pioneiros, e da sociedade leiga, as mentes mais empedernidas foram cedendo, quando a comunidade científica se associou à causa, incorporando a diretriz ambiental à geração de tecnologia. Daí a encontrar une raison détre econômica foi um pulo, e o estupor de ouvir, pela primeira vez, uma instituição financeira internacional condicionar a aprovação de projetos de financiamento, a uma avaliação positiva do impacto ambiental do projeto, foi substituído pela exigência de ver a questão ambiental perpassar todas as atividades humanas.

Rationale econômica

Da preservação dos pássaros e seu canto, das flores e suas cores, à incorporação de valor à defesa do ambiente construiu-se uma teoria econômica fundamentada. A incorporação da preocupação ambiental no seio da economia tem quatro vertentes principais:

  1. Natureza é capital. Capital, por definição, deve acumular-se e não erodir-se. Transportou-se a teoria da renda de longo prazo, para a necessidade de perenizar a renda obtida em atividades que utilizem intensamente recursos naturais. Algo como viver dos juros e não do capital, ou preservar a terra para os netos e bisnetos;
  2. Prevenir é mais barato que remediar. Ou seja, melhor conservar a água limpa e a terra sem erosão, que tentar recuperar a posteriori;
  3. Preservar ambiente agrega valor. O crescimento da consciência ecológica, e sua inserção no dia a dia da sociedade de consumo, obrigou o sistema produtivo a preservar a Natureza, para conseguir melhor preço (agricultura orgânica é um exemplo) e evitar o boicote aos produtos obtidos em desacordo com as normas preservacionistas;
  4. Imagem positiva. Qualquer corporação quer projetar uma imagem positiva, que alavanque as vendas, o que levou muitas organizações a associar-se ao esforço preservacionista.

E assim encontrou-se a justificativa econômica para a agricultura sustentável.

Antes a terra, logo a água

O impacto mais visível da produção agrícola na Natureza estava nas feridas provocadas pela água rolando morro abaixo, com cicatrizes indeléveis, a marcar agricultores que, por ignorância ou comodismo, desprezavam o patrimônio solo. Mas, além de arrastar a fertilidade, esse processo redundava em enormes malefícios aos cursos dágua, seja por poluição ou por assoreamento dos rios. Apesar de nosso planeta constituir-se de água em 80% de sua superfície, a tecnologia disponível até onde a vista alcança, somente permite fazer uso de não mais que 3% da água, de forma técnica e economicamente compatível. E sem prejuízos ambientais. Ao brasileiro de 4 regiões pode parecer um discurso vazio, mas pergunte a um nordestino do alto sertão o que ele pediria a Deus, se direito a um só desejo tivesse? Seguramente água. Mas quando a seca aperta feio no Sul, como ocorreu na última transição primavera-verão, é o momento de parar e refletir: até quando podemos considerar a água um recurso infinito e inesgotável?

Água, sinônimo de vida

O organismo dos seres vivos é composto, em sua maioria, de água. É rara a atividade humana que independa de água, como conceituada nas aulas de Química inodora, incolor e insípida. Ou seja, H2O de alta qualidade, sem contaminantes químicos ou biológicos. Água poluída pode ser cara para limpar, porém muito mais cara é a água perdida para sempre, aquela que não mais se descontamina, ou não mais se recupera. A água é um recurso mal distribuído pelo mundo, com desertos espalhados pela África ou Estados Unidos, além dos semi-áridos do Brasil, da Índia e de outros países. No Brasil, a concentração de água doce é um fato, encontrada em sua maior parte na Região Norte e escassa no Nordeste. Por conta das condições da Amazônia, o maior conjunto de água doce do Brasil se encontra protegido da agressão, mas, paradoxalmente, também é um recurso de valor nominal, posto que de difícil acesso.

Água e agricultura

Competitividade significa eliminar todas as restrições à plena expressão do potencial genético dos rebanhos ou dos cultivos, como baixa fertilidade, ataque de pragas ou clima inadequado. E, clima inadequado é quase sempre sinônimo de falta de água, quando mais dela se precisa. Ou até seu excesso quando clima seco é desejável. O Homem ainda está longe de interferir diretamente no clima global, havendo até desistido de influir nas condições locais, embora tenha havido um avanço sensacional na capacidade de previsão. Dessa forma, manejar o recurso água passa a ser um enorme desafio a todos quantos lidam com a agricultura. Desde a milenar irrigação, em que velhas metodologias são aprimoradas ou substituídas, ou ainda novas abordagens são criadas, com o claro objetivo de racionalizar o uso do recurso, até sistemas de plantio que conservem água. Nas lavouras tradicionais de arroz irrigado, cresce a consciência dos problemas causados pelo uso desregrado da água: o primeiro é o esgotamento das fontes, a alteração dos lençóis freáticos, e a dificuldade crescente em manter as mesmas condições de irrigação, no mesmo local, ano após ano. Outro fato é a contaminação da água, com o uso intensivo de substâncias químicas, em especial agrotóxicos e fertilizantes.

Tecnologia ou consciência?

Tenho comigo que a Humanidade somente se move por necessidade e ambição. A necessidade de aquecer-se fez o Homem esfolar o primeiro animal para aproveitar sua pele. A ambição fez de Giorgio Armani um milionário, vendendo ternos impecáveis. A necessidade de proteínas, e de calorias geradas pela carne suína, fez a Europa expandir a suinocultura. A ambição de um futuro melhor está fazendo refluir esse movimento, pela contaminação dos lençóis freáticos superficiais, com os dejetos da produção de suínos. O mesmo fenômeno ocorre com o milho, em que a rápida movimentação do nitrogênio em forma solúvel, gera lençóis dágua contaminados, de difícil e custoso aproveitamento. Então, a tecnologia é fruto de uma necessidade, de uma ambição, de uma demanda. No caso da água, a demanda atual é por água limpa, pura, prontamente utilizável. É para onde se movem as pesquisas científicas para dar suporte a uma demanda social, gerada pela consciência de preservação de um capital finito.

A guerra da água

As grandes guerras sempre tiveram causas remotas e imediatas, como desavenças, vendetas, ambição doentia, necessidade de poder, mas principalmente ocorreram guerras de conquistas, expansão das fronteiras. Ou seja, mais terra. O alvorecer do novo milênio pode trazer uma mudança radical no próprio paradigma da guerra, porque água tende a ser um recurso ainda mais escasso que a terra, se não for manejada adequadamente. Pode parecer ridículo imaginar exércitos se movimentando, ou mísseis riscando os céus para brigar por água. Como se briga hoje por petróleo, por mais espaço de terra, ou qualquer outro motivo. Não sejamos literais, a guerra pode ser comercial. Voltemos ao ponto anterior: quando um recurso necessário se torna escasso, passa a ser motivo de divergências, e a ambição pela sua posse ou domínio, motivo suficiente para movimentar as forças persuasivas, desde o domínio econômico, através de trocas comerciais, até o uso da força, para atingir o objetivo ambicionado.

Água, uma vantagem comparativa

O tema é multi-facetado. É evidente a necessidade de preservar água a todo o custo, enquanto se reflete e se discute o tema. A segunda faceta é a vantagem comparativa de quem domina um ambiente geográfico de alta concentração hídrica. Com água doce, de qualidade, preservada. Prontamente disponível para consumo humano, uso agrícola ou para processos industriais. O que diferencia um gênio de um homem comum de seu tempo, é a capacidade de enxergar anos à sua frente. Enquanto batalhamos contra a iniquidade das relações comerciais internacionais, geradas pela deslealdade dos países ricos no trato da questão, pode estar na água o diferencial competitivo. Não há como expandir, no espaço, a agricultura da China, Japão ou Indonésia, a ponto de satisfazer as necessidades do futuro próximo. Via de regra, acréscimo de produtividade exige maior volume de água. Na Europa, a sociedade se questiona, com intensidade crescente, se está valendo a pena pagar o alto preço da produção agrícola local, que ainda suja a água que os filhos bebem. Não estará justamente aí uma das luzes do fim do túnel para o Brasil de 2020? Voltaremos ao tema no mês que vem, que agora vou esquentar a água para o meu chimarrão.

Leia também a sequência deste artigo em: Água, um recurso estratégico

*O autor é Engenheiro Agrônomo, pesquisador da Embrapa Soja e Diretor Técnico da FAEA-PR.

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